FLAGCOUNTER DE ALÔ VIDEOSFERA - LINK IN

LITURGIA DIÁRIA COM O PADRE RÓGER ARAÚJO - 2017 - ANO A - REPÓRTER CATÓLICO - VALDIVINO FILHO

LITURGIA DIÁRIA COM O PADRE RÓGER ARAÚJO - 2017   - ANO A - REPÓRTER CATÓLICO - VALDIVINO FILHO
CLIQUE NA IMAGEM PARA ACESSAR A LITURGIA

quinta-feira

MEMÓRIAS QUE NÃO SE APAGAM - MÁRCIA MSA





Mamãe nos amou , como milhares de mães que se entregam e se esvaziam , para que seus filhos lutem e vençam! Nós nos alimentamos de sua vida , como de um favo de mel!

12/03/1981
Márcia MSA



Agradecimentos e dedicatória

Dedico estas memórias à meus pais, que sempre nos ampararam, educaram para a vida e muito nos amaram, incondicionalmente! Dedico estas memórias especialmente a eles.

Pai,

O importante não foi o pouco tempo que o conheci ( 8 anos), mas a educação e qualidade de vida que lutou para que sua família conquistasse. Ainda mais o admiro por ser também um herói nacional, por sua participação na 2ª Guerra Mundial, e por suportar o fardo de toda a discriminação social pela doença que trouxe de lá.

Mãe,

Você nos amou , como milhares de mães que se entregam e se esvaziam , para que seus filhos lutem e vençam! Nós nos alimentamos de sua vida , como de um favo de mel .

Dedico estas memórias a todos os que convivendo comigo as tornaram possíveis, especialmente meus familiares, irmãos, sobrinhos!

Hoje agradeço à todos os meus amigos e familiares, especialmente, meu esposo, Araújo, meus filhos, K. Danielle e K. Giovanni, minha nora, Izabela e Nathy, querida neta, por toda a vida que juntas construímos num aprendizado constante e abençoado por Deus.


Meus agradecimentos especiais à K. Danielle,  que pacientemente fez a digitação do texto, em meio a tantos trabalhos e estudos!
                                                         

          
                    I PARTE

Uma mulher pequena chega à rodoviária de uma cidade do interior : Patos de Minas. Uma mala grande, cor café , já descascada e desbotada pelo tempo.
Atrás, ficam tristes lembranças, momentos de aflição e desgosto... A árdua luta pela sobrevivência , as dívidas , um leilão dos bens , a aflição de uma emboscada , um tiroteio no bar , as lágrimas e o desejo de recomeçar tudo novamente na grande cidade de Belo Horizonte .
Com os olhos inchados pelo choro das despedidas, à sua frente somente a insegurança do futuro.
Cinco crianças , menores de sete anos , a acompanham. Um homem sério, semblante  de quem não voltará atrás jamais , procura pelos lados, a plataforma de Belo Horizonte.
Novas esperanças nascem naqueles corações sofridos.
As outras filhas do primeiro casamento, Lola e Vanda tiveram que ficar morando com os familiares por causa dos estudos: a mais velha com a tia , e a outra com a avó.
Lágrimas rolam dos olhos de Albertina, que teve que se separar das filhas para acompanhar o marido.
São muitas horas de viagem . Ainda não há asfalto entre as duas cidades. Há muita poeira nas estradas.
A noite cai , vagarosamente . As crianças vão , algumas no banco da frente e as duas mais novas nos colos dos pais :
-Mamãe , quero fazer xixi !
-Espere Márcia , ainda não é ponto de parada .
Já  é tarde . Algumas crianças começam a chorar.
-O que é isso aí , menino?
-É a Márcia ! É a Márcia!
A confusão é geral naquele cantinho do ônibus. Não aguentei esperar para ir ao banheiro!
Albertina tenta fazer tudo caladinha , enquanto o pai fica estressado com a meninada .O sono foi chegando aos poucos em cada um. De vez em quando uma criança acordava.
O sol nascia quando Albertina avistou Betim , último ponto de parada, quase em Belo Horizonte.
-Quinze minutos de café ! - gritou o motorista. Outra correria para levar os cinco para fazer xixi . Um café derramado e novamente a bronca do pai.
Um trem de ferro passou por ali .Os meninos ficaram embasbacados, pois nunca tinham visto uma Maria Fumaça : tic-tac...tic-tac...tic-tac...a fumaça subindo para o azul do céu ... eles ali, sonhando estar dentro do trenzinho.
Chegando a Belo Horizonte , o barulho do trenzinho era nada mais que uma saudade. Algo que passara e pertencia agora ao passado.
Isto não foi um sonho : Eu realmente o vivi!
Descemos na velha rodoviária , ao lado do mercado da Mauá , como desço  agora rumo ao jardim das rosas , quadra nove, no Parque da Colina...
Lá , o sol nascia Aqui, cai a tarde e uma chuvinha fina de verão...

                                              II PARTE

          NOSSA VIDA EM BEAGÁ (BELO HORIZONTE)

Naquele dia fomos a pé até ao ponto do ônibus do horto , de onde partimos para o novo lar , atrás do campo do "sete de setembro".
A casa cheirava a pintura nova. Tinha três quartos, cozinha , um modesto banheiro e a mobília estava ali, desmontada.
Naquele dia, dormimos ainda sobre um colchão estendido no chão.
Mamãe fez um almoço bem simples num fogão de querosene de duas bocas. Estava tão gostoso quanto o sabor da nova aventura.
Nos dias e meses que se seguiram fomos nos ambientando àquele bairro. Havia muita novidade , muitas crianças na rua .
Lembro-me de que bem pertinho dali havia uma chácara de japoneses , onde nasciam tomates gigantes , mas ninguém entrava lá, porque havia cachorro  bravo, que corria atrás da gente.
Subindo a rua à esquerda havia um pé de urucum que nós usávamos para pintar as bochechinhas , e um outro, de pau doce.
Um centro espírita na casa do vizinho era o inferno para nós. Éramos católicos e mamãe dizia que lá acendiam uma vela para Deus e outra para o diabo.
Quando havia jogo no campo do sete  escalávamos o muro e íamos assistir ao jogo. Aliás, íamos mesmo era ver o povão.
Outra vez era para ver os empregados molharem a grama com aqueles  esguichos interessantes...
No meio de nossos folguedos, mamãe era uma  mulher triste. Chorava muito, rezava e , quando recebia cartas de Patos, chorava o dia inteiro.
Meu pai ficava bravo , dizendo que aquilo era bobagem e que as meninas estavam bem lá, com a família.
Tivemos que nos mudar. O aluguel era muito alto e papai não estava trabalhando.
Fomos morar no bairro São Geraldo, perto da igreja, ao lado da casa da D. Zinha.
Alí comece a compreender muita coisa . Já estava com uns seis anos.
Papai era doente. Precisava ficar internado e não agüentava aquele tipo de tratamento , por isso fugia.
Mamãe costurava dia e noite , mas quando ele estava em casa era quase impossível, por causa do seu gênio difícil e exigente.
Nós?...Éramos muito levados!
Brincávamos e brigávamos o tempo todo! O recurso foi colocar a turminha no catecismo do Padre José para ver se consertava.
Quando meu pai estava em casa , o regime era quase militar.


Sabem , eu fiquei vários dias numa valeta escondido e tive que tomar água dali . Junto , estava um soldado morto , já deteriorando. (dizem que deve ser por isso que ele contraiu aquela doença da pele ...).


MEU PAI,  ARISTIDES 
 DURANTE A II GUERRA MUNDIAL - 
FOTO NO VATICANO - ITÁLIA
Ele é  o 1º à esquerda



   Minha mãe aos 40 anos quando se enviuvou em 1956, ficando com 7 filhos, sem nenhuma renda financeira...

Quando fomos  para o grupo, papai treinava- nos com uma sineta, como atender ao sino da escola e da merenda. se desobedecêssemos à professora, o outro contava] para ele , então havia conversa em casa, mais tarde . Por isto éramos tão bonzinhos na escola! Se íamos bem na escola, a recompensa: ir ao matinê no domingo, no cine ao lado da Igreja de São Geraldo. Até hoje eu "amo" a 7ª arte: o cinema!
Um dia, chegamos à casa e vimos papai doente. Estava com muita febre . Mamãe colocava angu quente em seu abdômem.  Fomos até a casa do vizinho buscar boldo para fazer chá.
Passaram - se muitos dias! A febre não passava. Mamãe chorava muito . Meu pai não levantou mais da cama . Estava tão esquisito , amarelo , amarelo. A barriga crescera muito. Mamãe ficava várias horas ao lado dele. Dava-lhe banho, tentava fazê-lo comer. Era um entra e sai dos vizinhos e cada um falava que tal remédio é que era bom.
Foi então que aconteceu: uma correria à noite, barulho, choro, não sei o que mais...
Quando amanheceu, lá estava ele na sala, coberto com um lençol branco.
- Márcia , hoje vocês não vão à aula. O papai foi para o céu, disse mamãe chorando . (Era o dia quinze de julho de 1956 ).



-Você e João vão dizer na escola que o papai morreu.
Ficamos assustados , mas não houve choro . Gostei da idéia de contar a novidade para a professora.
No caminho  , contamos para todo mundo : - Meu pai morreu! Meu pai morreu !
Quando voltamos, fomos de casa em casa, pedindo flores para colocar no caixão, coberto de roxo.
À saída para o enterro , o desespero de mamãe , depois cada um colocando uma colher de terra na sepultura , no antigo Cemitério da Saudade...  a volta lenta no vazio do silêncio ... são imagens inesquecíveis em minha memória.
-Mamãe , a Márcia não gostava do papai, não ! Ela não chora !
-Gostava sim, Lena , ela está triste também!
-Mas há três dias que papai morreu e ela não chorou ainda! -disse a Lena.
Naquele momento, explodi : - Eu gosto dele sim! Eu quero meu pai ! Papai... papai... - Gritava chorando.
Vieram tempos difíceis. Muito sofrimento mesmo para a mamãe. Ela tinha que sair e , para não nos deixar sozinhos na rua , nos trancava dentro de casa. Andava a tarde toda para conseguir arrumar os papéis da pensão de viúva de ex- combatente  .  Errava o caminho de volta para casa, pois não sabia andar na cidade ( meu pai não a deixava andar sozinha) e chegou a parar na rua Guaicurus, que todo mineiro curioso conhece, antiga zona boêmia de Belo Horizonte.
Outra vez , um vizinho ficava com pena dela e então nos levava para brincar em sua casa.
Havia sempre duas amigas que a ajudava muito : Domingas e a Cema. Também um amigo de Cema ajudou bastante a cavar a pensão : o Dr. Jairo.
Ah sim... Houve muita luta. As costuras aumentaram para sustentar a família . Até tarde , lá estava ela trabalhando . Felizmente, no grupo, não dávamos trabalho e gostávamos de aprender a ler, escrever nos caderninhos Companheiro que ganhávamos da Caixa Escolar.
A professora D. Marlene nos elogiava muito , o que nos tornava ainda mais aplicados, os novos colegiais.
Os alimentos estavam escassos. Estava muito perigoso para mamãe sair de casa deixando-nos a sós.
Veio então o dia da separação. Mamãe precisava internar-nos. O processo da pensão caiu em exercício findo e a reforma de meu pai demorava.
Um dia, veio uma Kombi , mamãe entrou conosco e o Sr. Joaquim, um amigo de mamãe e do pai,  nos levou para um orfanato em Mário Campos.
Mas não ficaram todos lá. Não havia vaga para a caçula. 
Estávamos gostando de ser internados , devido à preparação que mamãe fizera para não nos entristecermos no dia "D".
No caminho admirávamos as arvores que andavam , do lado de fora , a linda paisagem, o gados nos campos verdinhos.
À noite, as estrelas no céu, as três Marias , a estrela Dalva nos seguindo , eram misteriosos encantos para nós.
Chegando lá , a despedida. Fomos levados para jantar. Mas, que decepção ! Não tinha feijão!
-Quero feijão ! Quero feijão! - eu gritava- . Não sei se queria feijão ou se queria mamãe ou meu pai. No meu coração o sentimento era um só: desamparo.
Todos choravam comigo!
Fico pensando no sofrimento da mamãe , voltando para casa sem os quatro filhos. As filhas mais velhas ainda moravam no interior e dariam tudo para estarem juntas dela , naqueles momentos difíceis.
Decidida  e de vontade férrea mamãe sempre fora. Mostrando-se ao mesmo tempo frágil e pequenina, quando renunciava a própria felicidade para o bem dos filhos. Vê-los estudando era seu sonho supremo.
Sim,  o estudo ! Aquilo que lhe fora negado pelo pai , pois , moça que estudava e a prendia a ler, era para escrever carta para o namorado! Assim diziam os antigos!
Foram quatro anos de internato.
O que ali acontecia não era mais nem menos do que ainda acontece nos internatos de hoje. Havia adoções de crianças mais bonitinhas , a gente tentava agradar às chefes com doces que ganhávamos para que elas ficassem boazinhas para nós, mas o meu sonho mesmo acho, era fugir dali ou ser adotada para me ver livre daquele internato.
Meu irmão mais velho e o meu irmão gêmeo, ficaram no  pavilhão dos meninos . Raramente nos víamos.
-Olha lá o meu irmão ! É aquele barrigudinho, com aquela vassoura ! - eu dizia quando o via entre os outros varrendo do lado de fora do nosso pavilhão ,ou quando ele estava  perto da lagoa , capinando.
Recebíamos visitas de alguns parentes, mas mamãe era um visita certa.
Nós, meninas, ficamos separadas também . Lena foi para a turma das pequenas, eu , para a turma média e a caçulinha, Mary,  só foi internada quando houve vaga.
Jamais vi peças teatrais aqui fora tão bem ensaiadas como aquelas de lá. Haviam lindos cenários , vestes de cetim, faziam-nos papelotes  e usavam todos os recursos necessários. As peças teatrais inesquecíveis que apresentaram ali, foram:  Os Morangos Silvestres,  A Ação Católica , que contava a luta entre o bem e o mal, a vida de São Tarcísio ,  tinham como diretora a Irmã Leônia;  Minervina era quem nos ensaiava, no maior estilo, e , o sucesso era garantido nas festas da quermesse.
Havia coroações  , lindas procissões e missas do galo , com o coral afinadíssimo!
De noite, nos dormitórios, ouvíamos longas estórias da Tia Anastácia , do tipo Carochinhamula sem cabeça e saci-pererê .
Éramos, sim , até felizes ali, quando nos esquecíamos que vivíamos isoladas da família e da sociedade!
A irmã Leônia gostava muito de mim, colocava-me no coral, tinha também a tarefa de  molhar o seu jardim particular. Aos 11 anos, começou a ensinar-me órgão, bordado, datilografia e princípios básicos de costura. Aprendi órgão por um ano com a irmã Leônia e sempre me recordo da sua anti- pedagogia ( puxões de orelhas, a rigidez , os castigos no quarto escuro se preciso fosse), se tivesse qualquer atitude, fora dos padrões permitidos no internato, ou seja, com vestígios de liberdade ou de iniciativa própria, éramos castigados!
Vencido o prazo de quatro anos no internato,  no governo de JK , quando da inauguração de Brasília, novos tempos surgiram para todos.
Mamãe que continuava morando em Belo Horizonte, costurava muito ainda, e quando ia nos visitar, ficava algumas horas em sua cozinha , fazendo docinhos, pirulitos, pastéis e bolos para levar para nós. Levantava-se cedinho, lá pelas quatro horas , ou menos , atravessava o matadouro do Horto , estando ainda escuro, para ir à estação . Nessa época, ela morava no bairro Boa Vista.
Eram três a quatro horas de viagem até o internato, o que fazemos hoje em uma hora e meia até o nosso sítio , bem depois de Mário Campos.
Passávamos juntos todo o dia. Ela sempre nos dando esperanças de que estava perto o dia de sairmos dali , e nós, contando - lhe tudo o que acontecia no internato.
Pessoalmente , eu gostava mais da Irmã Vitória do que da irmã Leônia , pois a primeira ensinara - me uma coisa que eu sempre quisera aprender: a ler e escrever . Ela era a professora boazinha.
Depois de muita luta, novenas a Santa Rita , um dia saiu a reforma de meu pai : daí foi mais fácil sair a pensão.
Mamãe entrou no plano das primeiras casas populares construídas no governo de JK, no bairro Pedro II. Ele mesmo veio inaugurar as casas. Foi um grande acontecimento para a cidade.
Com o dinheiro das costuras, mamãe pagava as primeiras prestações, até o dia em que, graças a Deus, saiu a pensão do papai. Foi mesmo uma benção de Deus.
O João foi o primeiro que a mamãe tirou do internato , e ele foi fazer o   o quarto ano  no Grupo Padre Eustáquio.
Agora chegara a minha vez de sair dali. Se tínhamos momentos bons também havíamos colecionado uma boa carga de complexos e recalques, dos quais temos nos esquivado a cada momento de nossas vidas.
Terminei o terceiro ano e preparei - me decidida  e alegremente para a minha saída : uma malinha , dois cortes de chita, uma revista Sesinho, calcinhas, escova de dente, sabonete, acho que era só esta bagagem ( materialmente , é claro).
Mas que decepção! Todos sabiam que eu iria embora, menos a mamãe :
- A senhora prometeu que quando eu tirasse o terceiro ano ia me levar! - dizia insegura, com medo de ficar - Eu não fico mais aqui!
Fui penalizada . A irmã Leônia disse que eu mentira, mas juro que fizera tudo sem pensar em passar a perna nelas. Depois de alguns telefonemas conseguiram permissão para a minha saída. Consegui ! Venci!
11 anos e meio, malinha na mão , volto ao lar, rumo à vida, com uma boa carga de experiências vividas.
Os outros : Lena, Márcio e Mary , saíram no outro ano, com o mesmo objetivo : estudar.
Estudar sempre significou grandes despesas para os assalariados. Por isto, tentamos toda espécie de concursos para bolsas de estudos : procurávamos ser os melhores da sala, pelo menos eu, para fazer jus às bolsas de estudo conseguidas.
João acabou entrando para o colégio militar , em regime de internato , e de lá foi direto para a AMAN , em Resende , estado do Rio de Janeiro. Hoje é  major  do exército, trabalha em Porto Alegre .
Márcio, meu irmão gêmeo.  era um artista em lanternagem, sempre muito criativo e gostava de pegar passarinhos e gatos, mas estudar nunca foi o seu forte! Era muito tranquilo, de todos, foi o que mais sofreu, na minha opinião: tinha dificuldades de aprendizagem e a vida não foi muito boa para ele. Lena estudou e trabalhou, formando -se em psicologia. A caçulinha, Mary, formou-se em Farmácia, mudando-se para o Rio , prosseguindo ali seus estudos. Vanda sempre uma artista, prendada e habilidosa, sempre nos encantando com seus trabalhos e decorações, costuras, crochê e culinária!  A mais velha, Lola, fez curso de decoração em Montes Claros e se dedica à família e à pintura .
Todos estudamos até onde nos foi possível, porém o que aprendemos sempre foi motivo de muito orgulho para nós.
Dos tempos difíceis , não gostamos nem de nos lembrar!
Mamãe, sempre um anjo, a impedir que recordássemos demais o passado . Recordar é sofrer duas vezes - dizia - o que passou, morreu!

 
















Na verdade , eu nunca gostei de falar sobre os tempos do internato. Ainda hoje evito dizer o nome do internato como se fosse algo censurado em nossas vidas! dizer o nome do internato era confessar a razão porque fomos para lá. desde os tempos de Cristo, há 2 mil anos, qualquer pessoa que sofresse alguma doença como meu pai sofrera era rejeitado. E eu não posso deixar de colocar nestas memórias, o quanto meu pai, que contraíu hanseníase na guerra, foi rejeitado, discriminado pela sua própria família. Esta foi a razão que mamãe muito sofreu: a falta de fraternidade e solidariedade dos familiares de meu pai. Passou, graças a Deus!


Agora, quero fazer uma homenagem aos cantores de minha infância que plantaram em mim a semente musical, o amor ao idioma espanhol e nos deram muitas, muitas alegrias: Joselito e Marisol.

                         III PARTE

Resumo:


Na segunda parte, contei para vocês como foi a nossa saída de Patos, a viagem e a chegada em Beagá (B.H). A morte de meu pai e a nossa ida para o internato rural, em Mário Campos.
Chegamos lá à noitinha, e fomos direto para a copa para comer alguma coisa. Teve o episódio do feijão (como boa mineira, nunca gostei de comer sem feijão...aí foi aquele choreiro..). e eu puxando o coro, aos berros!...
Gente, chorei tanto quando era criança, que hoje é muito difícil eu chorar?! Como disse um dia minha prima Vanda: chorar pra quê? As lágrimas secam... e de tanto chorar não comovem mais!  Concordei!
Mas quando isto acontece, gosto de deixá-las rolar e secar os olhos com as mãos, fungar o nariz, o scambal...no melhor drama, que é a minha categoria cinematográfica favorita!

A vida no internato


Fico pensando no sofrimento de mamãe , voltando para casa sem os quatro filhos. As meninas, Lola e Vanda ainda moravam no interior e dariam tudo para estarem juntas dela , naqueles momentos difíceis!
Decidida e de vontade férrea mamãe sempre fora. Mostrando-se ao mesmo tempo frágil e pequenina, quando renunciava a própria felicidade para o bem dos filhos. Ver-nos todos estudando, os sete, para ela valia qualquer sacrifício. Era este seu desejo supremo como também de meu pai.
Antigamente, moça que estudava e aprendia a ler, era para escrever cartas para namorados!.. Santa ignorância! Minha mãe caíu nesta malha!

Foram quatro anos de internato.
O que ali acontecia não era mais nem menos do que ainda acontece nos internatos de hoje. Havia adoções de crianças mais bonitinhas , a gente tentava agradar às chefes com doces que ganhávamos para que elas ficassem boazinhas para nós. Eu até queria também ser adotada! Pode?!
Logo que chegamos lá, João e Márcio foram para o pavilhão dos meninos . Algumas vezes os via:
-Olha lá o meu irmão ! É aquele barrigudinho, com aquela vassoura ! Eu dizia quando  via o Márcio,  entre os outros varrendo do lado de fora do nosso pavilhão, capinando perto da lagoa, ou em alguma alameda próxima às janelas de nosso local de trabalho.(É, criança trabalhava naquele tempo...a gente bordava para as irmãs vender e angariar verbas para o orçamento do internato). Eu não acho isto errado, não! Naquele tempo não havia estas centenas de crianças sem rumo pelas ruas, sem estudo, sem nenhuma perspectiva de vida. Aprendemos cedo a ter responsabilidades! Hoje fico pensando que o futuro da educação, é a escola com horário integral, com atividades extras de cultura, lazer e esporte, para todos! Não da forma que ainda é hoje. E também para a classe média. A educação da juventude hoje está totalmente sem limites, não há respeito, filhos gritando com pais, sem horários para chegar em casa...uma lástima! 
 Preocupo-me muito com isto!

Voltando ao internato, recebíamos visitas de alguns parentes e das meninas, Lola e Vanda, e mamãe era um visita constante! Não demorava muito e lá estava ela, sempre presente, levando carinho, amor, esperança e também aqueles docinhos e pirulitos que ela sempre fizera. Ainda hoje, toda vez que eu vejo pirulito com formato de "chupeta de neném" eu me lembro dos nossos. Tinha um no formato de galinho que eu gostava muito. Quem herdou aquela forma de pirulitos foi a Lena. Bem que ela podia aprender a fazer para nós... faz-se um melado com limão, coloca dentro da forma, enforma direitinho e põe o palito. Depois é só disformar. É fácil! Tem que  ter cuidados com o melado...pode-se queimar!
Lá no internato, não só os meninos, mas as meninas, ficavam também separadas. Lena foi para a turma das pequenas, eu , para a turma média. Mary, só foi internada quando houve vaga, um ano depois, mais ou menos.
O tempo foi passando. Nós nos adaptamos muito bem ao internato. Havia muitos eventos e todas as festas folclóricas eram comemoradas com peças teatrais, dancinhas, coral e muita fantasia. Aquela vida foi fazendo parte de nossa história e aprendí a gostar de lá.
De noite, nos dormitórios, ouvíamos longas estórias da Tia Anastácia , do tipo Carochinha, mula sem cabeça e saci-pererê, lobisomen, bruxas, fadas e princesas!


 Ainda não se falava na princesa Pocarontas. Eu adorava a história de Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, A Bela Adormecida e A Bela e a Fera e os filmes, Marcelino, Pão e Vinho, A Vida de Maria Goretti, A Vida de São Tarcísio e a clássica comédia, O Gordo e o Magro e mais tarde um pouco, surgiram os filmes de JOSELITO, cantor infantil, mexicano, com sua voz de ouro e também "MARISOL",  a linda espanhola, cujo  site está aqui no blog, desde que o iniciei, em 2008.Veja  em meus blogs e sites favoritos. (que eu sigo). Os filmes eram repetidos muitas vezes e eu curtia demais!

Este vídeo do filme Marcelino Pão e Vinho - 1954, tem a cena mais comovente e encantadora  da minha infância: qdo Marcelino ergue a mãozinha para cuidar de Jesus, com pão e vinho e se estabelece a reciprocidade.

ASSISTA PELO YOU TUBE, no link abaixo:


MARCELINO PÃO E VINHO

Jamais vi peças teatrais aqui fora tão bem ensaiadas como aquelas do internato. Haviam lindos cenários , vestes de cetim, faziam-nos papelotes e usavam todos os recursos necessários na época para as apresentações.

Peças teatrais que gostei muito, foram Os Morangos Silvestres, A Ação Católica , que contava a luta entre o bem e o mal, a vida de São Tarcísio , que tinham como diretora a tão temida Irmã Leônia. Minervina era quem nos ensaiava, no maior e melhor estilo, e , o sucesso era sempre garantido nas festas da quermesse.
Haviam no mês de maio lindas coroações , procissões na festa de Corpus Cristi, maravilhosas, com aqueles tapetes coloridos de serragem e missas do galo, no dia de natal.
A irmã Leonia gostava muito de mim, colocava-me no coral, me escalava para molhar o seu jardim particular ou a sua horta. Aos 11 anos, começou a me ensinar órgão, bordado,o ponto de cruz, crivo, naqueles "giraus" de espichar o tecido para se bordar o ponto cheio e crivo. Várias meninas bordavam ao mesmo tempo. A gente bordava e conversava, conversava, até a Irmã chegar e cortar o nosso barato! Aí, a gente ficava bem quietinha e caladinha!
Aprendí também datilografia e princípios de costura. Acho que foi o princípio de tudo que faço hoje, ou já fiz, até surgir o computador, há 20 anos na empresa onde trabalhava.
Aprendi órgão por um ano com a irmã Leonia. Mas ( que peninha) sempre me recordo da sua falta de pedagogia e stress (se errava a lição, na aula de música, ganhava puxões de orelha! Eu odiava aquilo, mas odiava! Era violência de graça, mas gostava e gosto até hoje, muito, mas muito mesmo de música! (E não consigo passar do segundo ano de  estudos musicais cada vez que reinicío...kkk). Definitivamente eu não gosto de teoria musical! Gosto de tocar no teclado "de ouvido", o pouco que aprendí, mas que me faz bem, me relaxa... Prá mim tá bom!
Mas o piano, ah o piano!..É outra história, preciso aprender de verdade.. estou conseguindo passar de 3 anos, porque pretendo tocar música clássica na eternidade, lá naquela ilha, com um "toldo" branco sobre a orquestra, e tendo o pessoal sentado em frente, num gramado, ouvindo... Desde que ví o filme, NOSSO LAR, baseado no livro de Chico Xavier,  estou apaixonada por aquela música.Sempre gostei dela, mas não sabia o nome direito: está aqui nesta postagem: Moonlight de Beethoven,  da qual já coloquei o vídeo  aqui no blog: e ainda está aqui na página inicial. Sempre peço à professora de piano para tocá-la para mim no fim da aula.  Vou postar aqui de novo,  o vídeo com esta música ma-ra-vi-lho-sa! Sem noção! Mais de um milhão de internautas já viram este vídeo.



Então...éramos, sim, felizes ali, aprendendo a fazer de tudo e até recebendo uma boa educação e cultura, formação religiosa que levo para o resto da vida! Esta formação, não tem preço: veio com ela, a busca da verdadeira espiritualidade cristã.

Quanto à família de meu pai, sinceramente? Como sentir falta deles? Nunca aparecíam! Apenas ouvia  histórias de orgulho e falta de apoio à mamãe, quando mais precisou! Era revoltante!. É bem assim: a gente sente saudade de quem compartilha conosco as alegrias e tristezas desta vida! sentimos falta de quem nos trata com carinho e amor!
 Nas minhas memórias da infância, da família de meu pai, somente a família de Tia Celinha deixou lembranças.
Dos outros, eu ouví falar...
Vencido o prazo de quatro a cinco anos no governo de JK( Juscelino Kubstchek), acompanhamos a construção de Brasília.
Juscelino vinha muito a Beagá, e, as freiras nos levavam para "recebê-lo e participar das inaugurações de casas populares.
Quando da inauguração de Brasília, novos tempos surgiram para todos.
Mamãe costurava muito ainda, e quando ia nos visitar, ficava algumas horas em sua cozinha , fazendo docinhos, pastéis e bolos. Levantava-se cedinho, lá pelas quatro horas , ou menos , atravessava o matadouro do Horto , estando ainda escuro, para ir à estação . Nessa época, já morávamos no bairro Boa Vista.
Eram três a quatro horas de viagem , o que fazemos hoje em uma hora e meia até o nosso sítio , bem depois de Mário Campos.
Passávamos juntos todo o dia. Ela sempre nos dando esperanças de que estava perto o dia de sairmos dali , e nós, contando - lhe tudo o que acontecia no internato.
Pessoalmente , eu gostava mais da irmã Vitória do que da irmã Leonia , pois a primeira ensinara - me uma coisa que eu sempre quisera aprender: a ler e escrever . Ela era a professora "boazinha", que toda criança quer ter!
Depois de muita luta, novenas a Santa Rita , um dia saiu a reforma de meu pai : daí foi mais fácil sair mais tarde a pensão.
Mamãe que havia entrado no plano das primeiras casas populares construídas no governo do Presidente JK, no bairro Carlos Prates (BH), havia finalmente conseguido a sua primeira casa própria em BH, depois de tanto sofrimento. O Presidente mesmo veio inaugurar as casas. Foi um grande acontecimento para a cidade. Tenho uma grande gratidão por "JK." Político carismático" como ele, conta-se nos dedos!
Daqui para a frente, com o dinheiro das costuras mamãe pagaria as primeiras prestações da casa, bem suaves mesmo!
Um dia, graças a Deus, saiu a pensão do pai. Foi mesmo uma benção de Deus!
Finalmente, mamãe poderia nos reunir novamente: seus sete filhos...Futuro, que nos aguarde!
Engraçado, vou confessar uma coisa: quando eu era criança, eu olhava para o céu e pensava que lá havia uma estrela, que piscava para mim como a estrela dos reis magos apontando para Belém: era a minha estrela.... coisas de criança!


(Esta música deve ter uns 48 anos...)


IV PARTE

Resumo:

Na terceira parte relatei a vida no internato, em Mário Campos, MG, a nossa apresentação à sétima arte, através dos filmes infantis e peças teatrais inesquecíveis, os novos tempos da construção de Brasília, a tão sonhada capital federal, inaugurada por JK, único presidente que cuidou realmente da habitação neste país, construíndo as conhecidas casas populares nos anos cinquenta, inauguradas nos primórdios dos anos sessenta, em Beagá, tornando possível que muitas famílias pudessem assim também reconstruir suas vidas ou dar o passo fundamental para um novo tempo. A JK ( Juscelino K.), faço também esta homenagem singela e a minha admiração pelo grande estadista que foi! ( Conta-se nos dedos!)

A saída do internato

João foi o primeiro que a mamãe tirou do internato , indo fazer  o quarto ano no Grupo Escolar Padre Eustáquio.
Agora chegara a minha vez de sair dali. Se tínhamos momentos bons também havíamos colecionado uma boa carga de experiências, boas ou não, que cada um poderia trabalhar ao longo da vida, como motivação para o seu crescimento pessoal, ou simplesmente deixá-las acompanhar-nos como sombras, para sempre. Eu pessoalmente, optei por buscar o futuro nos estudos, para que pudesse realizar os meus sonhos e assim o sonho de meus pais.
Terminei o terceiro ano e preparei - me decidida e alegremente para a minha saída : uma malinha , dois cortes de chita, uma revista Sesinho, escovinha de dente, sabonete, acho que era só esta a bagagem. ( materialmente, era tudo que possuía e levaria do internato.
Mas que decepção! Todos sabiam que eu iria embora, menos a mamãe :
- A senhora prometeu que quando eu tirasse o terceiro ano ia me levar! - dizia insegura, com medo de ficar - Eu não fico mais aqui!
Fui penalizada . A irmã Leonia disse que eu mentira, mas juro que fizera tudo sem pensar em passar a perna nelas. Seguí as palavras de mamãe: ..."quando terminasse o terceiro ano, ela viria para me tirar dalí. Assim faria com os outros irmãos. Por isto era a minha vez de sair dali!
Eu chorava...chorava, pois a decepção fora muito grande!
Depois de alguns telefonemas para Beagá, as irmãs conseguiram permissão para a minha saída.
Consegui ! Venci! Onze anos e meio, malinha na mão , volta ao lar, rumo à vida, como num conto de fadas!
Os outros, Lena, Márcio e Mary , saíram no ano seguinte, com o mesmo objetivo : prosseguir os estudos, pois lá só havia a escola primária.
Estudar sempre significou grandes despesas para os assalariados. Por isto, tentamos toda espécie de concursos para bolsas de estudos : procurávamos ser os melhores da sala, pelo menos eu, para fazer jus às bolsas conseguidas.
João acabou entrando para o colégio militar , em regime de internato, novamente , e de lá foi direto para a Academia Militar , em Resende , estado do Rio de Janeiro.
Graças a Deus, à luta de mamãe e o apoio de minhas irmãs mais velhas, Lola e Vanda, conseguimos completar nossos estudos, trabalhar, e dedicar-nos às famílias que formamos.
O tempo passou como uma tempestade de areia no deserto, descobrindo oásis maravilhosos, expondo paisagens e sonhos possíveis e realizáveis...ou como um tufão: encobrindo com montes de areia, nossas dores e sofrimentos, nossas fantasias mais secretas, enterradas para sempre!
Mamãe, sempre foi um anjo, a impedir que recordássemos demais do passado . Recordar é sofrer duas vezes - dizia - o que passou, morreu! Quase nunca falava do passado! Era um assunto muito, muito pessoal!


A adolescência foi um grande período de enriquecimento social, cultural e psicológico, onde preparamos também uma boa bagagem de experiências para a vida.


Os anos sessenta - Anos Dourados

                            
                                MEU ÍDOLO, ELVES PRESLEY


Os anos dourados começaram no final dos anos cinquenta, portanto eu era ainda criança e passando pelo período de internato. Mas na sequência, os anos dourados, sim, vivemos plenamente, com todo o fulgor, desde o movimento socio-cultural hippie , 

  
à era dos meus ídolos, principalmente,  Elvis Presley.


Beatles, Sarita Montiel, a minha cantora mirim preferida, a espanhola "Marisol", a Jovem Guarda, até as lembranças da ditadura militar e a explosão cultural da tropicália e as maravilhas da sétima arte. Conhecíamos a maioria dos artistas, assistíamos filmes todos os finais de semana, às vezes, nos sábados e domingos e participávamos das alegres horas dançantes com as músicas nacionais da jovem guarda, como todos conhecem e os tangos, boleros e cha-cha-cha e os rítmos que amávamos dançar "coladinhos"...Faço aqui a minha homenagem ao nosso Rei, Roberto Carlos, que naquela época já era o meu "Rei" e ao eterno conjunto The Beatles que garantiu à minha juventude muita alegria e "som".
A denominação “Anos Dourados” provém do grande crescimento econômico e industrial que aconteceu naquela época.
Nos anos dourados, o mundo começa a passar por um período de crescimento tecnológico, ainda devagar, mas já era o início da revolução tecnológica que vemos hoje, e que, na qual estamos inseridos até a alma!!
O crescimento da economia em diversos países fez com que nossos hábitos de consumo fossem mudados, com a chegada dos eletrodomésticos ao Brasil, como o rádio de pilha, a geladeira, máquinas de lavar roupa, máquinas fotográficas, telefone, fogão a gás, a televisão já estava encantando o mundo! 

O mundo da moda cresceu e destacou celebridades na alta costura que se tornaram eternas, como Coco Chanel.

                                                                  A MODA VAI E VEM...
 




Podíamos nos vislumbrar com o crescimento econômico dos Estados Unidos e países da Europa.
A corrida armamentista acelerava o poder das ditaduras governamentais e o poder caía aos poucos nas mãos dos maiores capitalistas e detentores das novas tecnologias. Os países mais envolvidos na Segunda Guerra Mundial, também foram os que mais se destacaram pela capacidade de recuperação econômica (20 anos depois da guerra), nos anos dourados e pelo desenvolvimento tecnológico.
Este desenvolvimento acelerado dos anos dourados, levou ao extremo também o problema da fome no países com menor desenvolvimento, devido ao grande índice de natalidade, chamados de países do "terceiro mundo".
Vou parar por aqui, mas sem antes deixar a minha música favorita e inesquecível dos anos dourados: Só podia ser do meu amigo, Roberto Carlos! A jovem guarda foi e será sempre o tesouro da música popular brasileira!




                                                     V  PARTE


Conclusão

Olá amigos!
Demorei para terminar estas memórias. 
Confesso que para mim, é  muito difícil!
Adiei, adiei...cada dia era um problema: um dia estava com dor aqui, outro, ali. Outro dia, estava muito ansiosa e para escrever, gosto de estar muito, mas muito tranquila.
Até que hoje, não deu para eu sair porque estava chovendo muito (graças a Deus), e só me restava vir para a VIDEOSFERA. Ao entrar aqui, me deparei com meus links favoritos, na side bar. Então tá! Vou começar e terminar de escrever estas  memórias. Resisto em falar do passado até hoje!



Foram momentos gravados com lágrimas e lembranças que levo por toda a vida. Todos, algum dia, já passaram por perdas irreparáveis. Entes queridos que fizeram parte de sua infância, adolescência e vida adulta, que se foram de repente...pessoas que marcaram nossa vida, personalidade e caráter. Tudo isto representava par mim, minha mãe: era tudo além de mãe, pai, professora, orientadora, que não se preocupava em ensinar-nos teorias, mas conhecer a vida através dos sentimentos, emoções e  experiências vividas. Além disto, aprendi com ela o que é o amor incondicional.  Esta é uma aprendizagem que não se esquece, por toda a vida.

               

Mamãe, após vinte anos de viuvez , já apresentava na face todo o seu viver. O amor para ela há muito não significava uma relação a dois, pois aprendera a viver só, dedicando-se totalmente à família, e nós alimentávamos de seu amor,  de seus cuidados, como de um favo de mel. Aos poucos, a casa foi ficando vazia novamente. Cada um partia em busca de seus sonhos. Daquela casinha da Rua Piracicaba, próxima à Avenida Pedro II, mamãe também desejou partir .Suas idas aos médicos eram constantes e morar no centro da cidade seria uma boa solução. Foi um adeus à vizinhança de 22 anos, numa despedida quase sem palavras. Uma até logo , um longo abraço nos amigos mais chegados e a mudança. Mamãe fora sempre assim: realista. Aceitava tudo com a maior naturalidade , como se aquilo fizesse parte da rotina. Agora, morando no centro, estava mais fácil fazer seus tratamentos, que se tornavam constantes.  Diarréias constantes, desidratações, radiografias, eram motivos de suas constantes consultas. Um filho aqui, outro ali, os problemas familiares, os netos, eram a sua razão de viver.  Quando a coluna já se curvava pelo grande fardo, penso que fazia falta um companheiro para dialogar , orientar, dividir os problemas. Porém , ela jamais admitiu a necessidade de ter um companheiro  a seu lado, a não ser Deus, a sua família e a sua fé.

Naquele 15 de setembro eu telefonei para ela.. Disse-me que o seu médico achou melhor interná-la para fazer exames no hospital. Marcamos o horário, pegamos um taxi que nos levou até à Santa Casa.
Em casa tudo ficara em ordem, como se fosse uma despedida : organização e ordem eram a sua tônica.
Era cedo. Chegamos ao hospital, vencemos toda a burocracia de uma internação. Logo chegamos à enfermaria do 6• andar, leito 45.
Levava duas sacolas, porém , com o passar do tempo , a demora dos exames de tireóide , mais parecia que estava se mudando para o hospital.
Dizia "aqui em casa", brincava com todos, enfermeiras, doentes, com o médico, um bom amigo...
-Minha filha! Acontece cada coisa aqui... É melhor nem comentar...
Na verdade, a sua imagem ali era de uma estranha alegria, o que contrastava muito com sua vida sofrida.
Sabíamos que ela fingia um pouco de alegria, para não nos preocupar mais. Depois de dois meses de espera e resignação , resolveram operá-la , não a tireóide, mas o intestino. ( E depois falam que não existe destino , predestinação).
Estávamos preocupados, mas não ao ponto de aterrorizá-la.
Diariamente eu ia lá , mentindo para o porteiro, dizendo que ela estava na ala C (destinada a pacientes particulares) ; levava-lhe chá, conversava com ela , levava algum mimo, como no dia em que lhe dei de presente, aquele moranguinho de cerâmica que eu pintara, para que ela pudesse guardar o terço, a lixa de unha e a base de esmalte. Ah, ela tinha lá seus cuidados e um pouquinho de vaidade...
Brincamos muito naquele dia. Nossa família quando se reune, fica muito alegre....
-Mamãe, eu trouxe estes morangos para a senhora. ( mostrei-lhe o embrulho).
- Ôh fia ...eu não posso comer morango , porque é muito ácido.
Quando ela abriu o embrulho, era a cerâmica em forma de morango! A pintura era linda. Eu o pintei de vermelhinho, como uma rosa vermelha e a tampa, de uma cor verde como uma azeitona. Passei verniz...ficou um mimo!

                     
                                     Um mimo pra mamãe!


Fiz-lhe um novo roupão, bem na moda : xadrezinho de cor de rosa, todo com acabamento interno de rendinha ( alta costura, afinal, era a minha aprendizagem do momento: corte e costura ! ) Estava tudo bem, aparentemente . Faltava somente a operação que já fora marcada.
- Minha filha, estou disposta a tudo para descobrir o que eu tenho, mesmo que eu morra!
-Que é isto, mamãe! A senhora vai ficar jóia! Vai dar tudo certo!
Ela disse:
-Quando eu sair daqui , quero aproveitar a vida. Eu antes achava a vida tão triste ! Agora, de uns tempos para cá, eu estou mais conformada, eu vi que a vida é tão boa!
Disse um dia para uma doente que chorava: "Nós precisamos ter fé em Deus ! "
A operação correu bem . Lola veio de fora para acompanhá-la, num quarto da ala C , na Santa Casa.
No segundo dia, uma terça feira, conseguiu se levantar da cama e até assentar-se. À noite, veio a febre alta , as tremedeiras , as dores, o desespero de Lola por não encontrar nem um médico no plantão.
O dia veio surgindo e mamãe já não era mais a mesma quando cheguei ao hospital.
O médico a examinava compenetrado , novas radiografias e a resolução de esperar mais 2 dias para abrir novamente a operação, se ela não melhorasse.
Mamãe transfigurou-se nestes 2 dias . De que adiantavam tantos aparelhos colocados `a sua volta , as sondas, se seu estado era regressivo?
Estes 2 dias significaram o agravamento irrecuperável de seu estado.
Na sexta -feira , o telefonema derradeiro :
-Mamãe está muito grave !
Chovia fininho. Aquele tempo tristonho...pesado! Tudo para mim parecia um sonho, ou melhor, um pesadelo...
Peguei a sacola apressadamente . Lembrei-me de colocar uma blusa de malha preta, não sei o porquê , tive um pressentimento...


                    



-Não sei quando volto. Deus me livre , mas se acontecer alguma coisa, Maria , cuide bem dos meninos . ( Maria trabalhava comigo).

Estava só com as crianças e Maria. Meu esposo fora para uma pescaria e só voltaria uma semana depois. Decidi que seria forte e controlada! Eu sempre sou muito forte nestes momentos... o problema é três dias depois, eu desmonto literalmente, não consigo nem andar...eu não entendo nada de psiquiatria, mas me parece que fico sem nenhuma adrenalina...completamente sem forças!
Quando entrei no hospital, mamãe já estava em seu leito de agonia. Seria reoperada dentro de alguns minutos.
Não conseguia mais falar por causa do aparelho em sua boca. Os olhos quase sem vida. Quando viu que se aproximava a hora, num esforço sobre- humano, colocou as mão em gesto de oração , acompanhada por nós que rezamos uma Ave-Maria, um Pai Nosso; quando terminou, ainda levantou a mão com aquelas borrachinhas encravadas nela e fez o Nome do Pai.
Lena chegou. Mamãe confundiu-a com o anestesista e pediu o roupão à Lola. Esta pegou o mais velho. Mamãe disse com dificuldade : o x-a-d-r-e-z ...
-O novo, Lola, falei engasgada, agradecida por ela ter demonstrado, quase inconsciente, aquele carinho pelo mimo que lhe dera dias antes.
A enfermeira chegou. Passaram mamãe para a maca. Sem muito cuidado, aquele corpinho quase caiu, desprotegido na maca.

-Cuidado com a mamãe, gente! - exclamou Vanda!

O corredor frio... a chuva lá fora ... o vento assobiando ... Meu Deus, ela vai pegar uma pneumonia e morrer - pensei. E esta idéia me aterrorizou naquele instante: minha mãe ... morrer?! Não ! Não podia !
- Está sentindo frio, fia ? - perguntei.
Ela acenou que sim com a cabeça.
Naquele momento ela já não era mais a mãe , mas uma filha para mim ; uma filha indefesa , desprotegida , não a mulher forte que sempre fora .
Um nó atrás do outro atravessava a minha garganta.

Não podia chorar : eu sou forte! Eu sou forte... repetia mentalmente!
A enfermeira cobriu-a com um velho cobertor na sala de cirurgia.
A maca sumiu ao final do gélido corredor.
Foram três horas e meia de cirurgia , enquanto, assentadas no hall do elevador , orando, ora cochilando, aguardávamos uma notícia.
Foi quando vimos sair a toda velocidade uma maca, e nela estava a mamãe com aquele aparelho respiratório artificial.
- Rápido! Gritava o médico:
- Senão pode dar uma parada!
Virou para nós e disse :
- Depois eu explico tudo. Saiu às pressas para não perder o elevador.
Levaram-na para o CTI. Todos os esforços foram em vão!
Ali estivemos todos ainda para vê-la, dois a dois, no sábado à tarde.
-Vai com Deus, mamãe! -Sim... foi isto que pensei e consegui falar naquele instante em que lhe beijei o rosto contorcido. Eu sentia algo estranho...
Senti a revolta em alguns, pensando que eu não estava com fé na cura de mamãe.

Era tarde demais! Naquele mesmo dia a peritonite, um choque séptico e uma parada cárdio-respiratória atestaram para a sempre a separação de mamãe de nossas vidas ...
O vazio, os pesadelos nas noites que se seguiram, os calmantes, a angústia, a saudade que cresce dia a dia não se apagarão jamais !
Os soluços sufocados debaixo das cobertas , o velório cheio no dia de finados, o trajeto do velório do Bonfim ao Cemitério da Colina ... incrível , não havia vaga na Colina, no necrotério... a sirene chamando a atenção do trânsito... as flores no gramado verde da colina, tudo isto representou uma triste e amarga despedida. Mesmo assim, acreditem...eu até achei o cemitério bonito, todo florido que estava na comemoração do dia de finados. Vá tentar me entender...nem eu me entendo...

Mamãe nos amou, e muito, como sei que existem milhares de mães como ela, que se entregam, se anulam e se esvaziam para que seus filhos cresçam e amadureçam!
Um amor tão grande , num ser frágil e pequeno , mas capaz de vencer barreiras quando isto significa AMAR !
Hoje eu sei: O amor é mais que palavras, são gestos de ternura carinho e afeição incondicionais!

O amor não mudou , mas existem várias formas de estarmos apaixonados . Hoje , a paixão tomou conta de mim ao relembrar de minha saudosa mãe, lembranças que cravam o meu peito de dor...
O amor de mamãe foi incondicional, doou sua vida solitária à família , privando-se de outros amores...


Uma essência em termos de amor!










Final


Enquanto revivia estas lembranças, descia vagarosamente a rampa que fica atrás da "capela dos ossos".

Atrás, na lápide de granito , naquele feriado de finados, ficou gravado para sempre o nome de mamãe, para que ela jamais seja esquecida por todos nós!

O verde do Parque da Colina cede lugar agora à brisa da noite. A chuva fina continua...

Ouço meus passos no silêncio, amassando as folhas na relva.

Não existem mais palavras para exprimir o que sinto : somente lágrimas agora rolam livremente em meu rosto . Não me sinto mais tão forte ! Apenas me sinto indefesa, solta... perdida...sem chão!

Se Deus quiser, renascerei um dia para uma nova vida...
A meu lado , um ventinho frio passa e parece que sinto a mão macia de alguém afagando os meus cabelos.

Mais uma página de amor que se escreve !



ALBERTINA DOS SANTOS CASTRO

* 24/01/1916
+ 01/11/1980

                                          

Amor Incondicional

O amor é o sentimento mais puro, profundo  e sincero que o ser humano é capaz de sentir!
E o verdadeiro amor é incondicional, podemos estar separados  no tempo, mesmo assim o amor se mantém vivo, pulsando na alma, e com certeza resiste
 ao não tempo e vive na  eternidade!
À todos que passaram ou estão vivendo  uma grande perda,

- "Coragem!: " EU VENCI O MUNDO", disse Jesus.

             (João 16 - Biblia On Line)

        

                   "Amanhã será um novo dia"!                                       


MÁRCIA MSA
12/03/1981





















FONTE

MEMÓRIAS QUE NÃO SE APAGAM - MARÇO/1981 - MÁRCIA MSA

MARCADORES - INDICE DOS ARQUIVOS



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

OBRIGADA PELA VISITA. VOLTE SEMPRE!

OBRIGADA PELA VISITA. VOLTE SEMPRE!