OBS: TEXTO ORIGINAL EM PORTUGUÊS DE PORTUGAL
Tema do 16º Domingo do Tempo Comum
Tema do 16º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum dá-nos conta do amor e da solicitude de Deus pelas “ovelhas sem pastor”. Esse amor e essa solicitude traduzem-se, naturalmente, na oferta de vida nova e plena que Deus faz a todos os homens.
Na primeira leitura, pela voz do
profeta Jeremias, Jahwéh condena os pastores indignos que usam o “rebanho” para
satisfazer os seus próprios projectos pessoais; e, paralelamente, Deus anuncia
que vai, Ele próprio, tomar conta do seu “rebanho”, assegurando-lhe a
fecundidade e a vida em abundância, a paz, a tranquilidade e a salvação.


O Evangelho recorda-nos que a
proposta salvadora e libertadora de Deus para os homens, apresentada em Jesus,
é agora continuada pelos discípulos. Os discípulos de Jesus são – como Jesus o
foi – as testemunhas do amor, da bondade e da solicitude de Deus por esses
homens e mulheres que caminham pelo mundo perdidos e sem rumo, “como ovelhas
sem pastor”. A missão dos discípulos tem, no entanto, de ter sempre Jesus como referência…
Com frequência, os discípulos enviados ao mundo em missão devem vir ao encontro
de Jesus, dialogar com Ele, escutar as suas propostas, elaborar com Ele os
projectos de missão, confrontar o anúncio que apresentam com a Palavra de
Jesus.
Na segunda leitura, Paulo fala
aos cristãos da cidade de Éfeso da solicitude de Deus pelo seu Povo. Essa
solicitude manifestou-se na entrega de Cristo, que deu a todos os homens, sem
excepção, a possibilidade de integrarem a família de Deus. Reunidos na família
de Deus, os discípulos de Jesus são agora irmãos, unidos pelo amor. Tudo o que
é barreira, divisão, inimizade, ficou definitivamente superado.
LEITURA I – Jer 23,1-6
Leitura do Livro de Jeremias
Diz o Senhor:
«Ai dos pastores que perdem e
dispersam
as ovelhas do meu rebanho!»
Por isso, assim fala o Senhor,
Deus de Israel,
aos pastores que apascentam o meu
povo:
«Dispersastes as minhas ovelhas
e as escorraçastes, sem terdes
cuidado delas.
Vou ocupar-Me de vós e
castigar-vos,
pedir-vos contas das vossas más acções
- oráculo do Senhor.
Eu mesmo reunirei o resto das
minhas ovelhas
de todas as terras onde se
dispersaram
e as farei voltar às suas
pastagens,
para que cresçam e se
multipliquem.
Dar-lhes-ei pastores que as
apascentem
e não mais terão medo nem sobressalto;
nem se perderá nenhuma delas –
oráculo do Senhor.
Dias virão, diz o Senhor,
em que farei surgir para David um
rebento justo.
Será um verdadeiro rei e
governará com sabedoria;
há-de exercer no país o direito e
a justiça.
Nos seus dias, Judá será salvo e
Israel viverá em segurança.
Este será o seu nome: ‘O Senhor é
a nossa justiça’».
AMBIENTE
Jeremias, o profeta nascido em
Anatot por volta de 650 a.C., exerceu a sua missão profética desde 627/626
a.C., até depois da destruição de Jerusalém pelos Babilónios (586 a.C.). O
cenário da actividade do profeta é, em geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a
cidade de Jerusalém).
A primeira fase da pregação de
Jeremias abrange parte do reinado de Josias. Este rei – preocupado em defender
a identidade política e religiosa do Povo de Deus – leva a cabo uma
impressionante reforma religiosa, destinada a banir do país os cultos aos
deuses estrangeiros. A mensagem de Jeremias, neste período, traduz-se num
constante apelo à conversão, à fidelidade a Jahwéh e à aliança.
No entanto, em 609 a.C., Josias é
morto, em combate contra os egípcios. Joaquim sucede-lhe no trono. A segunda
fase da actividade profética de Jeremias abrange o tempo de reinado de Joaquim
(609-597 a.C.).
O reinado de Joaquim é um tempo
de desgraça e de pecado para o Povo, e de incompreensão e sofrimento para
Jeremias. Nesta fase, o profeta aparece a criticar as injustiças sociais (às
vezes fomentadas pelo próprio rei) e a infidelidade religiosa (traduzida,
sobretudo, na busca das alianças políticas: procurar a ajuda dos egípcios
significava não confiar em Deus e, em contrapartida, colocar a esperança do
Povo em exércitos estrangeiros). Jeremias está convencido de que Judá já
ultrapassou todas as medidas e que está iminente uma invasão babilónica que
castigará os pecados do Povo de Deus. É, sobretudo, isso que ele diz aos
habitantes de Jerusalém… As previsões funestas de Jeremias concretizam-se: em
597 a.C., Nabucodonosor invade Judá e deporta para a Babilónia uma parte da
população de Jerusalém.
No trono de Judá fica, então,
Sedecias (597-586 a.C.). A terceira fase da missão profética de Jeremias
desenrola-se, precisamente, durante este reinado.
Após alguns anos de calma
submissão à Babilónia, Sedecias volta a experimentar a velha política das
alianças com o Egipto. Jeremias não está de acordo que se confie em exércitos
estrangeiros mais do que em Jahwéh… Mas, nem o rei, nem os notáveis lhe prestam
qualquer atenção à opinião do profeta. Considerado um amargo “profeta da
desgraça”, Jeremias apenas consegue criar o vazio à sua volta.
Em 587 a.C., Nabucodonosor põe
cerco a Jerusalém; no entanto, um exército egípcio vem em socorro de Judá e os
babilónios retiram-se. Nesse momento de euforia nacional, Jeremias aparece a
anunciar o recomeço do cerco e a destruição de Jerusalém (cf. Jer 32,2-5).
Acusado de traição, o profeta é encarcerado (cf. Jer 37,11-16) e corre,
inclusive, perigo de vida (cf. Jer 38,11-13). Enquanto Jeremias continua a
pregar a rendição, Nabucodonosor apossa-se, de facto, de Jerusalém, destrói a
cidade e deporta a sua população para a Babilónia (586 a.C.).
O texto que nos é hoje proposto
como primeira leitura faz referência a esses tempos de desnorte nacional, em
que Judá, sem líderes capazes, já perdeu as referências e a esperança no
futuro. No texto, Deus condena os “pastores” de Israel porque dispersaram as
ovelhas do rebanho, o que parece aludir ao exílio na Babilónia. Provavelmente,
este texto deve situar-se entre 597 e 586 a. C., no tempo que vai desde o
primeiro exílio (após a primeira queda de Jerusalém – 597 a. C.) ao segundo
exílio (após a segunda tomada de Jerusalém pelos Babilónios – 586 a. C.).
O uso da imagem do “pastor” para
falar dos líderes da nação é bastante frequente no Antigo Testamento. Aliás, a
imagem adquiriu uma força especial na sequência de David, o pastor que Jahwéh
ungiu e transformou em rei, encarregando-o de cuidar do rebanho do Povo de
Deus.
MENSAGEM
O nosso texto começa com uma
breve exposição da culpa: os “pastores” de Judá perderam, dispersaram,
escorraçaram as ovelhas do Senhor, sem terem cuidado delas (vers. 1-2a). Cada
um dos verbos utilizados faz referência a factos concretos (bem recentes) da
história de Judá. O aventureirismo, os interesses pessoais, as jogadas
políticas, a inconsciência dos líderes trouxeram consequências funestas ao
Povo, ao “rebanho” de Deus. Os líderes de Judá não procuraram servir o Povo,
mas serviram-se do Povo para concretizar os seus objectivos pessoais. Ora, o
“rebanho” não é propriedade dos “pastores”, mas do Senhor… Deus chamou-os a uma
missão concreta, encarregou-os de cuidar do seu “rebanho” e eles, depois de
terem aceite o compromisso, falharam totalmente.
Depois da culpa, vem a sentença:
Deus vai “ocupar-se” desses maus pastores: vai castigá-los, pedir-lhes contas
das suas más acções (vers. 2b). Deus não está disposto a tolerar abusos de
confiança, nem pode pactuar com líderes que exploram o “rebanho” em seu
benefício próprio. Na perspectiva de Deus, trata-se de algo intolerável e que
não pode ser deixado em claro.
Mas a intervenção de Deus não se
fica pelo pedir contas aos maus líderes… O próprio Jahwéh vai intervir, no
sentido de salvar o seu “rebanho”. A intervenção de Deus justifica-se pelo
facto de se tratar do “rebanho” do Senhor e de Ele ter responsabilidades para
com as suas ovelhas.
A intervenção de Deus vai
desenvolver-se em três tempos, ou momentos… O primeiro é a repatriação dos
exilados: as ovelhas serão devolvidas “às sua pastagens para que cresçam e se
multipliquem” (vers. 3). Para esta tarefa, Deus não conta com intermediários:
Ele mesmo vai liderar o processo de libertação e de regresso dos exilados à
terra.
O segundo momento da intervenção
de Deus consiste na escolha de “pastores” exemplares (vers. 4). A missão desses
“pastores” será, simplesmente, “apascentar”. Isso implica, naturalmente, o
cuidado, a solicitude, o amor, a ternura pelo rebanho… Esses pastores estarão,
naturalmente, ao serviço do rebanho e não usarão o rebanho para concretizar os
seus interesses pessoais. As “ovelhas” aprenderão a confiar nesse “pastor” que
as ama e não terão mais “medo nem sobressalto”.
O terceiro momento da intervenção
de Deus é projectado para um futuro sem data marcada. Promete a chegada de um
“rebento justo” da dinastia de David (vers. 5). A imagem tirada do reino
vegetal (“rebento”) sugere fecundidade e vida em abundância, porque ele dará
vida em abundância ao rebanho de Jahwéh. Ele assegurará “o direito e a justiça”
e trará salvação e segurança ao Povo de Deus. O nome desse rei será “o Senhor é
a nossa justiça” (vers. 6), pois é Deus que o legitima e a sua missão será
administrar a justiça que Deus quer. Garantindo a justiça, esse “pastor” irá
trazer a harmonia, a paz, a tranquilidade, a salvação, a vida verdadeira ao
Povo de Deus. Esta promessa com contornos messiânicos pretende anular a
frustração e o desespero e inaugurar um tempo de esperança para o Povo de Deus.
ACTUALIZAÇÃO
• Antes de mais, o nosso texto
mostra a preocupação de Deus com a vida e a felicidade do seu Povo. Nos
momentos conturbados da nossa história (colectiva ou pessoal) sentimo-nos,
muitas vezes, órfãos, perdidos e abandonados ao sabor dos ventos e das marés… As
catástrofes que afectam o mundo, os conflitos que dividem os povos, a miséria
que toca a vida de tantos dos nossos irmãos, os perigos dos fundamentalismos,
as mudanças vertiginosas que o mundo todos os dias sofre, a perda dos valores
em que apostávamos, as novas e velhas doenças, as crises pessoais, os problemas
laborais, as dificuldades familiares trazem-nos a consciência da nossa pequenez
e impotência frente aos grandes desafios que o mundo hoje nos apresenta.
Sentimo-nos, então, “ovelhas” sem rumo e sem destino, abandonadas à nossa
sorte. Por vezes, no nosso desespero, apostamos em “pastores” humanos que, em
lugar de nos conduzirem para a vida e para a felicidade, nos usam para
satisfazer a sua ânsia de protagonismo e para realizar os seus projectos egoístas…
A Palavra de Deus que nos é proposta neste domingo garante-nos que Deus é o
“Pastor” que se preocupa connosco, que está atento a cada uma das suas
“ovelhas”; Ele cuida das nossas necessidades e está permanentemente disposto a
intervir na nossa história para nos conduzir por caminhos seguros e para nos
oferecer a vida e a paz. É n’Ele que temos de apostar, é n’Ele que temos de
confiar. Esta constatação deve ser, para todos os crentes, uma fonte de
alegria, de esperança, de serenidade e de paz.
• As ameaças contra os maus
pastores apresentadas neste texto de Jeremias talvez nos tenham levado a pensar
nos líderes do mundo, nos nossos governantes e, talvez também, nos líderes da
Igreja. Na verdade, a nossa história recente está cheia de situações em que as
pessoas encarregadas de cuidar da comunidade humana usaram o “rebanho” em
benefício próprio e magoaram, torturaram, roubaram, assassinaram, privaram de
vida e de felicidade essas pessoas que Deus lhes confiou… De qualquer forma,
este texto toca-nos a todos, pois todos somos, de alguma forma, responsáveis
pelos irmãos que caminham connosco. Convida-nos a reflectir sobre a forma como
tratamos os irmãos, na família, na Igreja, no emprego, em qualquer lado…
Recorda-nos que os irmãos que caminham connosco não estão ao serviço dos nossos
interesses pessoais e que a nossa função é ajudar todos a encontrar a vida e a
felicidade.
• O nosso texto faz referência a
“um rei” que Deus vai enviar ao encontro do seu Povo e que governará com
sabedoria e justiça. Jesus é a concretização desta promessa. Ele veio propor ao
“rebanho” de Deus a vida plena e verdadeira… Como é que nós, as “ovelhas” a
quem se destina a proposta de salvação que Deus nos faz em Jesus, acolhemos o
que Ele nos veio dizer? As propostas de Jesus encontram eco na nossa vida?
Estamos sempre dispostos a acolher as indicações e os valores que Ele nos
apresenta?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22
(23)
Refrão: O Senhor é meu pastor:
nada me faltará.
O Senhor é meu pastor: nada me
falta.
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.
Ele me guia por sendas direitas
por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por
vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque
Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo
me enchem de confiança.
Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça,
e o meu cálice transborda.
A bondade e a graça hão-de
acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.
LEITURA II – Ef 2,13-18
Leitura da Epístola do apóstolo
São Paulo aos Efésios
Irmãos:
Foi em Cristo Jesus que vós,
outrora longe de Deus,
vos aproximastes d’Ele, graças ao
sangue de Cristo.
Cristo é, de facto, a nossa paz.
Foi Ele que fez de judeus e
gregos um só povo
e derrubou o muro da inimizade
que os separava,
anulando, pela imolação do seu
corpo,
a Lei de Moisés com as suas
prescrições e decretos.
E assim, de uns e outros,
Ele fez em Si próprio um só homem
novo,
estabelecendo a paz.
Pela cruz reconciliou com Deus
uns e outros, reunidos num só
Corpo,
levando em Si próprio a morte á
inimizade.
Cristo veio anunciar a boa nova
da paz,
paz para vós, que estáveis longe,
e paz para aqueles que estavam
perto.
Por Ele, uns e outros podemos
aproximar-nos do Pai,
num só Espírito.
AMBIENTE
A Carta aos Efésios é,
provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias
Igrejas da Ásia Menor, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma? em
Cesareia?). O seu portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60.
Alguns vêem nesta carta uma
espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que Paulo sente ter
terminado a sua missão apostólica na Ásia e não sabe exactamente o que o futuro
próximo lhe reserva (recordemos que ele está, por esta altura, prisioneiro e não
sabe como vai terminar o cativeiro).
O tema central da Carta aos
Efésios é aquilo a que Paulo chama “o mistério”: o desígnio (ou projecto)
salvador de Deus, definido desde toda a eternidade, escondido durante séculos
aos homens, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos
apóstolos, desfraldado e dado a conhecer ao mundo na Igreja.
O texto que nos é aqui proposto
integra a parte dogmática da carta. Depois de reflectir sobre o papel de Cristo
no projecto de salvação que Deus tem para os homens (cf. Ef 2,1-10), Paulo
refere-se à reconciliação operada por Cristo, que com a sua doação uniu judeus
e pagãos num mesmo Povo (cf. Ef 2,11-22).
MENSAGEM
Paulo dirige-se aos pagãos (“vós
outrora longe de Deus” – vers. 13) e explica-lhes que foi pelo sangue de Cristo
que eles se aproximaram de Deus. Antes, eles adoravam os ídolos e tinham
convicções religiosas; mas desconheciam o verdadeiro Deus e a sua proposta de
salvação; agora, foram admitidos a fazer parte da família de Deus.
Além disso, a entrega de Cristo
derrubou a tradicional barreira de inimizade que separava judeus e pagãos e fez
de todos um único Povo. Os judeus, convencidos de que eram um Povo à parte,
desprezavam os pagãos e não queriam qualquer contacto com eles; as suas leis
pugnavam por uma rígida separação e interditavam o contacto com os outros
povos. Os pagãos, por sua vez, nutriam um profundo desprezo pelos judeus, pela
sua diferença, pela sua arrogância…
Ora, Cristo veio apresentar uma
proposta de vida que é para todos, sem excepção. O que é decisivo, agora, não é
a pertença a um determinado Povo, mas a forma como se responde à proposta de
vida que Jesus faz. Responder positivamente à proposta de Cristo é passar a
integrar a comunidade dos santos. A Lei de Moisés, com as suas prescrições e
exigências (que, na prática, vedavam aos pagãos a possibilidade de integrar o
Povo de Deus), fica anulada… Na nova economia da salvação, o que conta é a
disponibilidade para acolher a vida que Deus oferece e ser Homem Novo.
Nasce, assim, um “corpo” que
integra os mais diversos membros, pertencentes a todos os quadrantes da família
humana. Todos aqueles que aceitaram integrar a comunidade de Jesus, sem
diferenças de etnias, de raças, de cor da pele, de classes sociais ou
culturais, pertencem à mesma família, a família de Deus. Todos – judeus e
pagãos – são, agora, membros da comunidade trinitária do Pai (que oferece a
vida), do Filho (que vem ao encontro dos homens para lhes comunicar a vida do
Pai) e do Espírito (que mantém unidos os membros deste “corpo” entre si e com
Deus.
ACTUALIZAÇÃO
• O texto que nos é proposto tem,
em pano de fundo, essa verdade fundamental que a liturgia nos recorda todos os
domingos: Deus tem uma proposta de salvação para oferecer a todos os homens,
sem excepção; e essa proposta tem como finalidade inserir-nos na família de
Deus. A constatação de que para Deus não há distinções e todos são, igualmente,
filhos amados – para além das possíveis diferenças rácicas, étnicas, sociais ou
culturais – é algo que nos tranquiliza, que nos dá serenidade, esperança e paz.
O nosso Deus é um pai que não marginaliza nenhum dos seus filhos; e, se tem
alguma predilecção, não é por aqueles que o mundo admira e endeusa, mas é pelos
mais débeis, pelos mais fracos, pelos oprimidos, pelos que mais sofrem.
• O que é verdadeiramente
importante, na perspectiva de Deus, não é a cor da pele, nem as capacidades
intelectuais, nem as qualidades humanas, nem a pertença a determinada
instituição política ou religiosa, nem os contributos (em dinheiro ou em obras)
que se dão à Igreja; mas o que é decisivo é ter disponibilidade para acolher a
vida que Ele oferece e para aderir à proposta de caminho que Ele faz. Estou
sempre numa permanente atitude de escuta das propostas de Deus, ou vivo fechado
a Deus e às suas indicações, num caminho de orgulho e de auto-suficiência? Para
mim, o que é que significam as propostas de Deus? Elas influenciam as minhas
opções, os meus valores, as minhas atitudes? A forma como eu me relaciono com
todos os homens e mulheres que encontro nos caminhos deste mundo é coerente com
essa proposta de vida que Deus me faz?
• A comunidade cristã é uma
família de irmãos, que partilham a mesma fé e a mesma proposta de vida. É um
“corpo”, formado por uma grande diversidade de membros, onde todos se sentem
unidos em Cristo e entre si numa efectiva fraternidade. As nossas comunidades
(cristãs ou religiosas) são, efectivamente, comunidades de irmãos que se amam,
para além das diferenças legítimas que há entre os membros? Nas nossas
comunidades todos os irmãos são acolhidos e amados, ou há irmãos considerados
de segunda classe, marginalizados e maltratados? Eu, pessoalmente, como é que
vejo esses irmãos na fé que caminham comigo? Perante as diferenças de
perspectiva, como é que eu reajo: com respeito pela opinião do outro, ou com
intolerância?
• No mundo de hoje o fenómeno da
globalidade aproxima-nos dos outros homens que partilham connosco esta casa
comum que é o mundo e torna-nos mais tolerantes para com as diferenças.
Contudo, subsistem muros – alicerçados nas diferenças rácicas, políticas,
religiosas, sociais, afectivas – que impedem uma total experiência de
fraternidade universal. Na nossa vida pessoal e familiar, na nossa vida pessoal
e na nossa experiência de caminhada comunitária, aparecem frequentemente muros
que nos dividem, que impedem a comunicação, o encontro, a comunhão. Nós, os
discípulos desse Cristo que veio reconciliar “judeus e gregos” e fazer de todos
“um só povo”, temos o dever de dar testemunho da paz e da unidade e de lutar
objectivamente contra todas as barreiras que separam os homens.
ALELUIA – Jo 10,27
Aleluia. Aleluia.
As minhas ovelhas escutam a minha
voz, diz o Senhor;
Eu conheço as minhas ovelhas e
elas seguem-Me.
EVANGELHO – Mc 6,30-34
Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo,
os Apóstolos voltaram para junto
de Jesus
e contaram-Lhe tudo o que tinham
feito e ensinado.
Então Jesus disse-lhes:
«Vinde comigo para um lugar
isolado
e descansai um pouco».
De facto, havia sempre tanta
gente a chegar e a partir
que eles nem tinham tempo de
comer.
Partiram, então, de barco
para um lugar isolado, sem mais
ninguém.
Vendo-os afastar-se, muitos
perceberam para onde iam;
e, de todas as cidades, acorreram
a pé para aquele lugar
e chegaram lá primeiro que eles.
Ao desembarcar, Jesus viu uma
grande multidão
e compadeceu-Se de toda aquela
gente,
que eram como ovelhas sem pastor.
E começou a ensinar-lhes muitas
coisas.
AMBIENTE
O Evangelho do passado domingo
mostrava-nos Jesus a enviar os discípulos, dois a dois, para pregarem o
arrependimento, expulsarem os demónios, ungirem e curarem os doentes (cf. Mc
6,7-13). O anúncio que é confiado aos discípulos é o anúncio que Jesus fazia (o
“Reino”); os gestos que os discípulos são convidados a fazer para anunciar o
“Reino” são os mesmos que Jesus fez.
O Evangelho deste domingo
apresenta-nos o regresso dos enviados de Jesus. Marcos chama-lhes, agora,
“apóstolos” (enviados): é a única vez que a palavra aparece no Evangelho
segundo Marcos. A missão correu bem e os “apóstolos” estão entusiasmados, mas
naturalmente cansados.
Não há, no texto, qualquer
indicação do lugar onde a cena se teria desenrolado.
MENSAGEM
O nosso texto começa com a
narração do regresso dos discípulos que, entusiasmados, contam a Jesus a forma
como se tinha desenrolado a missão que lhes fora confiada (vers. 30). Na
sequência, Jesus convida-os a irem com Ele para um lugar isolado e a descansarem
um pouco (vers. 31). Os discípulos foram, com Jesus, para um lugar deserto
(vers. 32); mas as multidões adivinharam para onde Jesus e os discípulos se
dirigiam e chegaram primeiro (vers. 33). Ao desembarcar, Jesus viu as pessoas,
teve compaixão delas (“porque eram como ovelhas sem pastor”) e pôs-se a
ensiná-las (vers. 34).
O episódio, em si, é banal… No
entanto, Marcos vai aproveitá-lo para desenvolver a sua catequese sobre o
discipulado. A catequese apresentada por Marcos desenvolve-se à volta dos seguintes
pontos:
1. Os apóstolos são os enviados
de Jesus, chamados a continuar no mundo a missão de Jesus. Essa missão consiste
em anunciar o Reino. Para a concretizar, os apóstolos convidam os homens que
escutam a mensagem a mudarem a sua vida e a acolherem a proposta que Jesus lhes
faz. Os gestos dos discípulos (“expulsaram demónios, curaram doentes” – Mc
6,13) anunciam esse mundo novo de homens livres e esse projecto de vida
verdadeira e plena que Deus quer oferecer a todos os homens.
2. A referência à necessidade de
os “apóstolos” descansarem (pois nem sequer tinham tempo para comer) pretende
ser um aviso contra o activismo exagerado, que destrói as forças do corpo e do
espírito e leva, tantas vezes, a perder o sentido da missão.
3. Os “apóstolos” são convidados
por Jesus a irem com Ele para um lugar isolado. Já dissemos, acima, que não se
nomeia esse lugar: na realidade, o que interessa aqui não é o lugar geográfico,
mas sim que esse “descanso” deve acontecer junto de Jesus. É ao lado de Jesus,
escutando-O, dialogando com Ele, gozando da sua intimidade, que os discípulos
recuperam as suas forças. Se os discípulos não confrontarem, frequentemente, os
seus esquemas e projectos pastorais com Jesus e a sua Palavra, a missão
redundará num fracasso.
4. Entretanto, as multidões
tinham seguido Jesus e os discípulos a pé – quer dizer, deslocando-se à volta
do Lago de Tiberíades, com o barco sempre à vista. Esta busca incansável e
impaciente espelha, com algum dramatismo, a ânsia de vida que as pessoas
sentem… Jesus, cheio de compaixão, compara a multidão a um rebanho sem pastor.
Não é nos líderes religiosos ou políticos da nação que elas encontram segurança
e esperança; não é nos ritos da religião tradicional que elas encontram paz e
sentido para a vida… Mas é em Jesus e na sua proposta que as multidões
encontram vida verdadeira e plena. Na sequência, Marcos vai narrar-nos a cena
da multiplicação dos pães e dos peixes, que saciam a fome de cinco mil homens.
ACTUALIZAÇÃO
• A proposta salvadora e
libertadora de Deus para os homens, apresentada em Jesus, é agora continuada
pelos discípulos. Os discípulos de Jesus são – como Jesus o foi – as
testemunhas do amor, da bondade e da solicitude de Deus por esses homens e
mulheres que caminham pelo mundo perdidos e sem rumo, “como ovelhas sem
pastor”. As vítimas da economia global, os que são colocados à margem da
sociedade e da vida, os estrangeiros que buscam noutro país condições dignas de
vida e são empurrados de um lado para o outro, os doentes que não têm acesso a
um sistema de saúde eficiente, os idosos abandonados pela família, as crianças
que crescem nas ruas, aqueles que a vida magoou e que ainda não conseguiram
sarar as suas feridas, encontram em cada um de nós, discípulos de Jesus, o
amor, a bondade e a solicitude de Deus? Que fizemos com essa proposta de vida
nova e de libertação que Jesus nos mandou testemunhar diante das “ovelhas sem
pastor”?
• A missão dos discípulos não
pode ser desligada de Jesus. Os discípulos devem, com frequência, reunir-se à
volta de Jesus, dialogar com Ele, escutar os seus ensinamentos, confrontar
permanentemente a pregação feita com a proposta de Jesus. Por vezes, os
discípulos (verdadeiramente comovidos com a situação das “ovelhas sem pastor”)
mergulham num activismo descontrolado e acabam por perder as referências;
deixam de ter tempo e disponibilidade para se encontrarem com Jesus, para
confrontarem as suas opções e motivações com o projecto de Jesus… Por vezes,
passam a “vender”, como verdade libertadora, soluções que são parciais e que geram
dependência e escravidão (e que não vêm de Jesus); outras vezes, tornam-se
funcionários eficientes, que resolvem problemas sociais pontuais, mas sem
oferecerem às “ovelhas sem pastor” uma libertação verdadeira e global; outras,
ainda, cansam-se e abandonam a actividade e o testemunho… Jesus é que dá
sentido à missão do discípulo e que permite ao discípulo, tantas vezes fatigado
e desanimado, voltar a descobrir o sentido das coisas e renovar o se empenho.
• A comoção de Jesus diante das
“ovelhas sem pastor” é sinal da sua preocupação e do seu amor. Revela a sua
sensibilidade e manifesta a sua solidariedade para com todos os sofredores. A
comoção de Jesus convida-nos a sermos sensíveis às dores e necessidades dos
nossos irmãos. Todo o homem é nosso irmão e tem direito a esperar de nós um
gesto de bondade e de acolhimento. Não podemos ficar no nosso canto,
comodamente instalados, com a consciência em paz (porque até já fomos à missa e
rezámos as orações que a Igreja manda), a ver o nosso irmão a sofrer. O nosso
coração tem de doer, a nossa consciência tem de questionar-nos, quando vimos um
homem ou uma mulher (nem que seja um desconhecido, nem que seja um estrangeiro)
ser magoado, explorado, ofendido, marginalizado, privado dos seus direitos e da
sua dignidade. Um cristão é alguém que tem de sentir como seus os sofrimentos
do irmão.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
16º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de “Signes
d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA
SEMANA.
Ao longo dos dias da semana
anterior ao 16º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus
deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo…
Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da
paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa
comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a
Palavra de Deus.
2. BILHETE DE EVANGELHO.
Deus tem piedade… Uma grande
multidão pode abafar física e moralmente. Compreende-se que Jesus queira
preservar os seus apóstolos: eles foram ao encontro das multidões para as
ensinar e fazer milagres, então Ele propõe-lhes para se afastarem para um lugar
deserto a fim de retomar o fôlego e não perderem o sentido daquilo que é
essencial. Mas a multidão tem fome de palavras e de sinais, é ela que dirige o
curso dos acontecimentos, parece querer recordar a Jesus e aos seus discípulos
que eles não têm o direito de fugir. Como reagem os apóstolos? Não sabemos. O
que sabemos é que Jesus se enche de piedade; este sentimento que O anima
revela-nos algo do rosto do Pai. É o coração de Deus que bate no coração de
Jesus cheio de piedade. Sim, Deus tem piedade da multidão na margem do lado
Tiberíades, como outrora teve piedade do seu povo escravo no Egipto. E quando
Deus tem piedade, Ele age.
3. À ESCUTA DA PALAVRA.
Instituição evangélica das
férias! “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”. É a
instituição evangélica das férias! De facto, a multidão era tão numerosa que os
Apóstolos nem tinham tempo para comer. Deviam estar esgotados, tanto mais que regressavam
do primeiro envio em missão, que não terá sido propriamente um tempo de
repouso. Conhecemos a vida de Jesus, a sua missão, as grandes fadigas, as
noites em oração, sem dormir, após um dia extenuante… Numa das travessias de
barco, aproveita mesmo para repousar um pouco e dormir… Assim, Ele sabe estar
atento à fadiga dos seus companheiros. Convida-os a respeitar também as
exigências da natureza corporal, a ter um pouco de repouso. E nós, hoje?
Sabemos bem que as férias não são um luxo, se corresponderem àquilo para que
existem: precisamente para respeitar a nossa natureza humana, que exige tempos
de relaxe, de recuperação, não apenas física mas também intelectual e
espiritual. As férias não são um tempo de ócio, mas de “re-criação”, para
retomar energias. Sabemos que há ainda muitos homens, mulheres e crianças que
são explorados como vulgares máquinas para produzir. Isso não é respeitar a
vontade criadora de Deus. O Evangelho de hoje, que cai bem em período de
férias, recorda-nos isso de modo muito oportuno. Isso é também válido para os
servidores do Evangelho! Os Apóstolos diminuem, as funções pastorais aumentam…
a fadiga também. Cabe a cada um tirar as devidas consequências evangélicas!
4. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
Com o Salmo 22… Como no Evangelho,
temos de necessidade de nos afastar, de tomar alguma distância em relação à
nossa vida trepidante, para repousarmos… Mas, de facto, sabemos repousar? Sem
televisão, sem leitor de CD e DVD, sem Internet, sem vídeo, sem barulhos de
todas as espécies, sem telemóvel? Ousamos encontrar-nos no silêncio, face a nós
mesmos, face a Deus? Este momento que passarmos, só com Deus, pode ser, antes
de mais, um tempo de silêncio para nos colocarmos na sua presença, seguindo-se
um tempo de oração lenta e intensa do Salmo 22…
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E
ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
PROPRIEDADE:
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel
Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos
Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129
LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
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